Contemplações de Juliana

“Muito além do subcutâneo”

“Não importa a origem do silicone e, sim, as formas femininas que ele proporciona.” (Frase extraída de “Carandiru: O filme”)

Utilizado para modificação estética no contorno corporal, o silicone é um material que teve maior evidência inicial na América do Norte, seguindo para a Ásia, Europa, e América do Sul. Há três formas deste: líquido, gel e elastômero, sendo a primeira, usada de forma clandestina no Brasil e em diversos outros países. Sua injeção teve o ápice nos anos 1950, contudo devido às diversas complicações agudas e crônicas decorrentes de seu uso nos organismos, o Food And Drug Administration (FDA) proibiu seu uso em 1994, salvo exceção do tratamento de descolamento de retina; no Brasil, não há liberação para o uso do silicone líquido injetável com finalidade estética.

Mas existem abismos entre os decretos e a realidade “nua”, no Brasil ele segue sendo utilizado, não em sua forma pura, mas adicionado a outras substâncias (óleos vegetais e minerais) com o propósito de amenizar as consequências do uso: aumentar a resposta tecidual local e, reduzir a migração relacionada à aplicação de grandes volumes. Há relatos de associações com parafinas e fluidos para transmissão automotiva associado ao silicone. Muitas técnicas foram criadas para o procedimento, técnicas que não são legalizadas, não são monitorizadas, mas que ocorrem diariamente, como injeções no tecido celular subcutâneo – por vezes intramusculares -, com relatos de utilização de até oito litros em uma única sessão. Surge aí terreno fértil para complicações, com ainda incipientes manejos clínicos (anti-inflamatórios, anti-histamínicos, corticosteroides e antibióticos sistêmicos), conservadores (por vezes, discretas áreas de isquemia e necrose cutâneas também são tratadas de forma conservadora ou considerado curativos) e, para casos mais complicados, abordagens cirúrgicas. Apesar da retirada completa do silicone injetado ser difícil – impossível? -, o tratamento medicamentoso ameniza os sintomas agudos e pode diminuir o processo inflamatório local.

Evidências e estudos mostram os riscos do uso desse material, contudo, mesmo cientes, mesmo conhecendo pessoas com problemas secundários às aplicações, perpetua-se seu uso. E é nesta lacuna da sociedade que atuam as “bombadeiras”, muitas delas Travestis; elas são as responsáveis por “fazer o corpo” de quem busca seu serviço. Moldam os que, vulnerabilizados, os que não têm acesso às intervenções cirúrgicas aprovadas, os que não têm acesso à cirurgiões plásticos, mantêm os desejos de mudanças que os favorecidos: e quem sabe ter o status de “tops”, de “belíssimas”? Violentamente, arredonda-se e suaviza o que era anguloso, duro e reto.

Enquanto a realidade de acesso aos serviços (notadamente) de saúde não for modificada, urge uma conscientização: redução de danos do uso do silicone industrial. Orientações sobre os riscos de manejo de seringas; educativo dos sinais de alarme, do momento de buscar auxílio especializado; conscientização das doenças secundárias; entre outras. As pessoas interessadas não deixarão de buscar o serviço apenas pelo fato de sua ilegalidade, o desejo da transformação ultrapassa os limites das normas sociais.

Pode-se dizer que, em última instância, o uso de silicone industrial injetável seria um passaporte para a corporeidade, para o papel de gênero almejado. Materializa-se assim a pessoa, concreta e simbolicamente, através das camadas de silicone. “No imaginário, a alteração do corpo remete a uma alteração moral do homem” (Le Breton)

Referências:

  • Complicações Locais Após A Injeção De Silicone Líquido Industrial – Série De Casos – Daniel Francisco Mello; Karen Chicol Gonçalves; Murilo F. Fraga; Luis Fernando Perin; Américo Helene Jr – Rev. Col. Bras. Cir. 2013; 40(1): 037-043
  • Injeção De Silicone Líquido Industrial: Complicações Imediatas E Tratamento – Murillo Francisco Pires Fraga, Marcos Fábio Ianni Pereira De Castro, Luís Fernando Perin, Américo Helene Júnior – Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2007; 52(1):14-8
  • “Toda Quebrada Na Plástica” – Corporalidade E Construção De Gênero Entre Travestis Paulistas – Larrisa Pelúcio – Artigos
  • Cartilha – Silicone: Redução De Danos – Associação De Travestis Unidas Na Luta Pela Cidadania