Álcool e Performance

O bêbado e o Equilibris …. Caiu?


Desde que o mundo é mundo, pelo menos assim analisado nos banquetes gregos, o uso de álcool está intimamente misturado aos relacionamentos afetivos/sexuais. Quantas vezes, por nos sentirmos envergonhados, fazemos de um ou uns drinks o recurso para ficarmos mais “soltinhos”.

Vamos entender os porquês? 
A bebida alcóolica atua diretamente no sistema nervoso central e, por definição, funciona como uma droga depressora, ou seja, tem como consequência deixar o corpo mais relaxado, sedado; entretanto, sabe-se que quando o organismo está acelerado, por exemplo quando se está com medo ou ansioso, o uso inicial do álcool causa uma redução dessa sensação (rebaixamento leve), muitas vezes associado à desinibição do comportamento. Isto acontece pois existe um limiar, uma corda bamba, entre o desacelerar o corpo/mente e o papel de rebaixamento mais intenso previsto. Explicando: além de diminuir o limiar de ansiedade, não é incomum o prejuízo discreto (aquele que vira o balde do dia seguinte ao decorrer do copo) da capacidade de adequada leitura do ambiente ao nosso redor (habilidades e cognição social) acompanhada de uma interpretação não tão correta dos estímulos do meio muitas vezes; logo, a primeira impressão é que o álcool tira a ansiedade/temores/hipervigilância e deixa a pessoa mais expansiva e com menos amarras sociais.


Então você tomou seu whisky, chegou na parceria desejada e, inclusive de forma bem-sucedida, teve um timing ótimo para a conversa … Você sabe quais outras mudanças podem ocorrer no corpo e na interação sexual em vigência do uso do álcool? Inicialmente tem-se uma percepção de aumento de libido (também explicada pela diminuição da preocupação com juízos de valores sociais), assim como uma maior tensão sexual criada durante uma conversa e/ou preliminares. De fato, as pessoas estão mais relaxadas, inclusive sentindo-se mais seguras de uma performance mais interessante.
Mas a performance não melhora e o bêbado de ocasião passa a ser equilibrista! Nas pessoas que tem falo, o álcool pode causar prejuízo de ereção (manutenção e/ou tônus) e existem estudos sobre alterações ejaculatórias (também relacionadas ao uso crônico de bebida e infertilidade). Já nas pessoas com vulva/vagina, existe uma diminuição da lubrificação global da genitália, levando à dificuldade de interação. E, em todos os indivíduos, é comum a dificuldade de atingir o orgasmo apesar de ser um possível facilitador para o clímax.

Então pode ou não pode? A dúvida que não quer secar!

Tudo que é feito em ambiente de segurança, de forma consciente e é uma escolha, pode ter uso interessante para quem o faz. Não é sobre “burocratizar” o momento de lazer, mas é ter discernimento entre onde, com quem e, porque você consome álcool. Embriagues pode significar uma menor percepção de vulnerabilidades, quando em maior quantidade pode levar a episódios de perda de memória pontual e diminuir a capacidade de sentir o que está acontecendo (e estamos buscando o contrário nesse cardápio não?). Campo fértil para abusos e violências (…). Também existem situações em que o uso de álcool acompanha o de demais substâncias psicoativos (drogas ilícitas) para potencializar as sensações durante o sexo (e não é só sobre penetração, ok?), já que os indivíduos ficam mais vulnerabilizados aos estímulos externos. O chamado ChemSex envolve grandes entorpecimentos durante o sexo. Os riscos da prática são significativos: diminuição da capacidade de consentir, perda de percepção de situações de riscos e dos cuidados com a saúde sexual (Infecções sexualmente transmissíveis, gestação não planejada, ferimentos, pouca percepção
do limiar de dor, etc.). Por fim, o uso crônico de álcool pode levar à prejuízos vasculares (diretamente relacionados à ereção do falo), sintomas depressivos (associados à diminuição de libido, de capacidade de atingir o orgasmo, assim como prejuízos de performance variados), sintomas físicos impactando na autoestima e no desempenho sexual em si. 

Mas espera aí que chamei a saideira:

Neste uso, existe um propósito de recreação, com responsabilidade, com todos os envolvidos adultos e conscientes? Existe uma escolha do uso e não uma prática secundária à uma dependência
ou imposição social do momento? Então, cabe a cada indivíduo respeitar o seu limite, mapear seu centro de equilíbrio e tornar essa travessia de corda bamba uma música com final feliz.

 

Juliana Alves

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